22.7.14

Vida Morosa.



Segue, nestas linhas, uma história qualquer.
Sobre um dia qualquer.
Que poderia ter acontecido comumente com todas as pessoas que leram, estão lendo ou lerão este texto e, com uma freqüência muito maior, acontece com as que não leram, não estão lendo e nunca o lerão.

Vida Morosa

Tinha, por hábito, assim que acabava de despertar do sono matinal de forma compulsória, açoitado pelo intermitente barulho polifônico do despertador, abrir a menor fresta possível da cortina do quarto. Neste caso, esta pequena fenda era o máximo para que obtivesse o mínimo de visão que o possibilitasse compreender de que forma as condições climáticas se apresentavam naquele momento.
Nos dias em que acordava antes do fim do ocaso ficava mais difícil, mas caso a lua já tivesse trocado completamente de posição com o sol, era o hábito descrito acima que determinava a sua inclinação ao bom humor no restante do dia: se o mundo estivesse ensolarado, com céu azul e calor, levantava com uma enorme disposição, sorrisos e esperava muito mais das horas que viriam a partir dali. Em caso de nuvens concentradas, senhor do tempo grisalho, frio e garoa bem fina – essa era a pior parte, afirmava: “Ou chove de vez ou não chove. Garoa fina é falta de vergonha do ciclo da água” – transformava-se em um ser humano desprezível e rabugento. Ele era o “Dr. Jekyll do clima”.
Entretanto, naquela manhã, quem se pôs de pé foi o “Mr. Hide” e você, leitor, já pode imaginar o motivo. A ameaça latente de chuva, dada a escuridão estabelecida, mesmo com o dia nascido por inteiro, piorava toda a situação, já que Ele detestava guarda-chuva. Mais que a chuva. Não havia jeito: casaco vestido por cima da blusa social, calça jeans, tênis, meia e ele: o objeto que lhe despertava repúdio. Fechado. Na mão. Com a pequena corda rodeando o pulso.
O caminho da casa até o ponto onde tomava a condução com destino ao trabalho era curioso e guardava uma beleza que contrariava a estética dominante para apreciação de paisagens: a margem de um rio delimitava o seu caminho, cercado por muitas árvores que também o acompanhavam por todo o trajeto. Naquele horário, podia-se observar com facilidade aves de diferentes espécies, umas voando e outras estáticas, além de peixes e frutos do mar em diversidade grande.
Entendo que neste ponto você, se chegou até aqui, deve estar confuso e a pergunta em sua cabeça é simples: como o autor afirma que o local não era digno de apreciação estética se a idealização que ele me propõe descrita não acompanha esta informação? Tudo bem, eu queria te privar da verdade, mas já que você pediu e o que eu menos quero é que meu texto não seja compreendido, eu vou direto ao ponto: não era rio, era vala, e um eufemismo que Ele gostava de usar para se referir ao mesmo era: “ex-rio”, ou seja, foi um rio, mas deixou de cumprir com a sua função. As aves que ali gorjeavam eram de duas espécies apenas: garças e urubus, que aguardavam ansiosamente os restos jogados pelo homem que vendia peixes, camarão e lula nas margens do valão. Acreditem: a saída era grande.
Neste cenário, caminhava Ele (ou Eu, ou Você). Cerca de 10 minutos o separavam da chegada ao destino nem sempre pontual no ponto – de ônibus - e por volta do minuto quatro e do segundo catorze, ele já podia, mesmo com a miopia, entender uma forma borrada que se assemelhava à representação de uma ave parada. Uma não, duas, nos dois postes que formavam uma espécie de portal. De um lado, a ave branca. Do outro, a negra, mas essa informação da gradação não tem relação com o final da história e só foi utilizada para que não se repetisse “urubu” e “garça”.
A chuva se iniciou 42 segundos depois e, com muito mais nitidez dos animais no topo da iluminação pública, Ele prontamente se valeu do guarda-chuva. Punho fechado no cabo, polegar no botão de abertura, objeto na diagonal e pronto. Aquelas inoportunas e malévolas moléculas de hidrogênio com oxigênio faziam de propósito. A fome na África e o bombardeio de crianças palestinas por Israel, com direito a camarote para assistir à barbárie – não há relação nesta frase com o MMA –, a prisão preventiva de militantes políticos no Brasil e a existência de Jair Bolsonaro, Silas Malafaia, Marco Feliciano e Luciano Huck não se aproximavam do tamanho do problema que era aquela chuva, naquela hora, para ele. Mesmo com a anunciação, mesmo sabendo que poderia acontecer. “Poderia ser depois”, pensava.
Olhou para o objeto em suas mãos e teve a certeza que continuava odiando carregar aquele estorvo, aquele problema, mas havia uma coisa que ele gostava que só aquilo ou uma capa poderiam lhe dar: a proteção. Estar submetido a ele era extremamente ruim, mas pelo menos se protegia, se resguardava, da – agora tempestade – que o acaso lhe proporcionou.
Conforme caminhava, ia prestando atenção nas sentinelas com penas que observavam desde muito longe o seu trajeto. Olhou para a beira do ex-rio e observou que o homem do peixe não estava mais ali, bem como sua mercadoria. Observou também que, com a chuva, garças e urubus haviam se entocado em algum lugar – talvez junto com o peixeiro, não sabia – e apenas aquelas duas permaneciam ali. Paradas. Só os olhos se mexiam, fazendo com que, num primeiro momento se compadecesse “dos bichinhos que estavam todos molhados, coitados, nem possuem um abrigo como eu”.
  Ele se concentrava nos olhares. O bichinho da direita parecia lhe observar com uma severidade que o pior ser humano, que passou por sua vida, nunca lhe havia lançado. Aflito, buscava o da esquerda e recebia um olhar de pena. Como quem olha para uma criança faminta, para alguém que perdeu um grande amor ou para quem acha tomorrowland algo sensacional.
Desta forma, Ele não sabia em qual deles concentrar sua atenção naquele momento. Foco em sua frente. Escapou algumas vezes, mas apesar de todo assombro com a humanidade penetrante naqueles globos oculares dos ovíparos, a sua curiosidade com a cena o fazia buscá-los com impulso descontrolado e, agora, além de olharem para Ele, passavam a trocar olhares entre si, como se estivessem se comunicando e cochichando com a retina informações que só eles e apenas eles, bichos de penas, poderiam saber, numa linguagem visual inalcançável.
Bem próximo do portal desenhado, com a chuva castigando mais que em qualquer momento do trajeto, baixou a cabeça e passou direto. Evitando a linha cruzada na comunicação das aves. Evitando o assombro que aquela situação toda lhe causava e negando – mesmo atribuindo a este pensamento algo vergonhoso – que sua loucura estava ultrapassando os níveis limites da sanidade.
Pareceu ouvir uma palavra. Procurou o peixeiro novamente e não o encontrou. Quando o seu cérebro conseguiu processar o som que havia escutado no meio da ventania e da tempestade com seus altos decibéis, não compreendeu. A Palavra foi “coitado”. Seguida de uma voz diferente, que repetiu o mesmo termo, num tom que não queria, mas não via como não concordar com a primeira.
Acelerou o passo sem querer olhar pra trás, tendo a falsa impressão de que lutava contra a realidade fantástica que se apresentava diante dEle. Na verdade, fugia. Ora, não poderia ser apenas mais uma manhã comum em direção ao trabalho, somente atormentada pela forte tempestade e salvaguardada pela segurança e proteção do objeto que estava em suas mãos?
Entrou no coletivo. Havia um lugar. Tomou o velho caderninho de anotações e rabiscou.
 
“Do alto de suas torres,
Sentinelas nus observam
O transeunte que se protege
Das amarguras
Que amarguram os sentinelas.
Infeliz do que se compadece
Do desprotegido,
Pois recebe, em resposta,
A severidade e a pena
Que o olhar da liberdade impõe.
Ser livre é não se privar do acaso do mundo.”





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