17.7.09

[Des]construção.

Amou daquela vez, sem ao menos levar em conta a remota possibilidade de poder ser a última chance que tinha pra fazer aquilo com a esposa, pela qual um dia foi extremamente apaixonado. Já não era feliz e, sinceramente, fazia o possível para continuar mantendo aparências e não ser alvo de estigmas familiares.

Beijou sua mulher e, no mesmo instante, lembrou-se de Lindalva, a loira que por muitas vezes ia visitar-lhe no horário do almoço e cujos "dotes" faziam-lhe proferir a seguinte frase, quando em companhia dos amigos: - "Ela vem sempre trazer a "quentinha"". Ele fazia questão de indicar as aspas com um sinal de dedos.

Desceu as escadas da suíte e encontrou os filhos, a mesa estava recheada de frutas, pães, cereais e o que mais o leitor puder imaginar para compor um bom café da manhã. Um casal, tinha o homem. A mais velha, terminava o curso de publicidade naquele ano e iria ser facilmente efetivada na empresa a qual estagiava, de um amigo dele. Era competente. O mais novo, acabara de ingressar no curso de direito e tinha lá suas qualidades também. Beijou a cada um como se fossem únicos- escondendo sua preferência pelo descendente que passaria o nome da família adiante- e saiu com atraso de casa.

Ao atravessar a rua com passos tímidos, percebeu que, em verdade, não estava atrasado. Forjou a pressa, assim como vinha forjando até então seu passado recente. Já não despertavam-lhe paixão muitas partes de sua vida. A agonia do cotidiano o fazia querer correr, o que era prontamente obedecido por seus atos. Corria como forma de fuga, porém com um movimento de aceleração centrípeta. Abriu a garagem que ficava do lado ímpar, tomou o carro e saiu com destino ao escritório.

Consultou seu relógio de pulso e viu que o trânsito o havia atrasado, naquele dia, muito mais que o costumeiro e tinha apenas dois minutos para chegar ao oitavo andar - "tomara que não haja fila no elevador", pensou ele. E não havia, por uma sorte incomum. Quase chegando na sala de reuniões, foi interrompido. Era engenheiro civil e Lindalva, a secretária, levou-lhe dúvidas rápidas sobre o que fazer com o último prédio. Recomendou ao mestre-de-obras que construísse quatro paredes sólidas e perfeitas - a essa última palavra atribuiu um tom de braveza , em uma tentativa de manutenção de hierarquia e de imposição de sua postura séria para os outros empregados. Completou a ordem exigindo que parecessem construídas por mágicos.

Reunião terminada, era hora da supervisão de obras, antes do almoço. Paredes semi-construídas, gostava do modo de trabalhar de Sebastião, um homem de mais ou menos 50 anos - sua idade - que conseguia pôr na prática todas as determinações dadas. Nos últimos tempos, o término de trabalhos era a única coisa que o animava, de modo que, ao ver aquele pronto, tivesse que lavar o rosto e pingar duas singelas gotas de colírio em cada olho.
Horário de almoço iniciado, decidiu que não 'comeria' no próprio escritório naquele dia. Caminhou até o estabelecimento mais próximo e sentou-se. Sentiu o corpo descansar e o primeiro pensamento que lhe veio à mente, ocorreu em forma de pergunta; indagou-se a respeito dos motivos que o levavam a trabalhar naquele sábado. De fato, não os encontrou, mas o leitor mais atento apontará facilmente, dentre eles, a questão da fuga constante.

A pensão era modesta e o seu traje social fez com que a própria dona fosse atendê-lo. Pediu o prato do dia: arroz, feijão, purê de batata e bife à milanesa. Fazia muito tempo desde a última vez em que havia experimentado um tempero caseiro. Gostava de sentir, bem distante, as gotas de pimenta naquele feijão. Isso o fazia lembrar de sua infância, de sua mãe e dos constantes pedidos para que fossem as últimas colheradas, no tempo em que ela a chamava pelo carinhoso apelido de “príncipe”. Recordou-se, então, que não a via há alguns anos.

Decidiu-se: Naquele dia, não iria mais trabalhar. Pagou a conta e, no boteco da esquina, pediu quantas Brahmas pudesse beber até que sentisse algum efeito. Engoliu-as como se faz com um copo d'água no fastígio da sede. O grande barco da vida que guia a todos, o havia feito náufrago naquele lugar. Pôs a mão no bolso e buscou duas moedas, colocando-as no jukebox. Soluçando e gargalhando, ouviu sua canção favorita de Chico Buarque e, logo em seguida, tirou uma morena pra dançar seu bolero predileto.

Pôs-se a correr pela calçada do bar, da maneira como pode fazê-lo um ébrio. A alegria etílica tomava-lhe todo o corpo e, ao avistar duas crianças pulando amarelinha, decidiu aventurar-se. Casa um: equilibrou-se com a dificuldade da embriaguez sobre a perna direita. Apesar de tudo, mostrava bom controle. Passou pelas casas dois e três e, quase caindo, conseguiu apoiar-se sobre os dois pés nas casas posteriores. Seis, sete, oito e nove e novamente sobre os dois pés. Casa dez e apenas o pé direito no chão. Um salto era do que precisava Agenor para chegar ao céu. O céu de sua vida, o ideal de suas escolhas. O que era afinal o seu céu? Por um instante, a insatisfação recorrente veio-lhe à cabeça e a ilusão do alcance, da chegada ao Eldorado da existência, estava ali. Decididamente saltou. Pulou com a vontade maior de colher a felicidade, abriu os braços como asas, assemelhando-se a um pássaro.

Labirinto afetado, movimentos bruscos feitos anteriormente, ao aterrizar no céu, a perna esquerda não aguentou e Agenor tropeçou. Caiu de forma brusca para o seu lado esquerdo, batendo com a cabeça à toda força nos paralelepípedos espalhados ali. No mesmo instante, agonizou. Todos que ali passavam, paravam pra ver. Era tanta gente, que o tráfego estagnou, contemplando a tragédia.

Agenor, com traumatismo, não aguentou por muito tempo e sucumbiu. Foram com ele a ganância, a insatisfação, o desespero e, com tudo isso, o auto-desprezo. Definitivamente, para ele, o céu foi fim.
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